BLOCO IV – QUARTO SETOR
A AUTONOMIA DO CORPO E A RECONFIGURAÇÃO DO DESIGN CONTEMPORÂEO
"O corpo – e tudo que diz respeito ao corpo, a alimentação, o clima, o solo – é o lugar da Herkunft: sobre o corpo se encontra o estigma dos acontecimentos passados do mesmo modo que dele nascem os desejos, os desfalecimentos e os erros; nele também eles se atam e de repente se exprimem, mas nele também eles se desatam, entram na luta, se apagam uns aos outros e continuam seu insuperável conflito. Michel Foucault
;Se perguntarmos a um transeunte qualquer, desatento e envolto nos fluxos tecnológicos, na ideologia do trabalho e,sobremaneira, estafado por tudo que lhe chega a partir de uma rede discursiva dita como “atualidade”, pelos equipamentos coletivos de mídia, e por uma sequenciada transmissão de enunciados desconstrutivistas, por uma tal reprodução subjetiva da pior fase do capitalismo, e por uma fabricação desmesurada de máquinas territorializadas - para usar uma expressão de Felix Guttari - o que define a contemporaneidade; certamente não obteremos resposta fácil...Se caminharmos um pouco mais e num recorte intelectual, buscarmos as correntes pós-modernas, tão em voga nesse momento do delírio universal, longe de recorrer a um discurso homogêneo, melodicamente desenvolvido, certamente esses teóricos ajustariam o tema, o conceito e à circunstância, quebrando a possibilidade positivista de definição, dando-lhe amplas possibilidades de significar o design contemporâneo. Ora, diante das mutações da subjetividade, sobretudo aquelas que não podem ser reduzidas a modelos de identidade, diante da desidentificação com o circunstancial controle social – muito embora possamos definir a era do controle como uma evolução do século da disciplina – depois da queda da infra-estrutura marxista, e em plena vigência da representação de estratos heterogêneos da invenção cotidiana – paradoxo do mesmo-diferente, ao invés da produção de uma heterogênese pura - diante das oposições binárias vividas a todo vapor, e de um retrocesso de percurso da produção massiva, o que sobrara para uma tal definição. O corpo? Talvez! Fato é que diante das contradições entre o natural, o artificial, e o cultural, ou melhor, entre a natureza, o artifício e a cultura, demonstrar as virtudes do corpo ainda é o melhor caminho para fugir da encruzilhada dos múltiplos componentes de subjetividade que compõem o contemporâneo...Vou falar como modelo-não-modelizado um corpo-farpas; um corpo-máscara-aranha, confeccionado com tampas de ralo de pia; um corpo tecnológico primitivo; de farrapos com conceitos; do simples com a complexidade de um corpo-design menos atual do que virtual, que é nada mais, nada menos do que a expressão diagramática e movente, instável e mutante, difuso e esquizo, do próprio corpo contemporâneo. Corpo este que não reproduz modelos preexistentes no mass-media, e que inventa ou reinventa um trajeto da História Universal – do arcaico ao medieval; do moderno ao pós-guerra – e que introduz possibilidades para uma reconquista do corpo no ambiente inumano em que vivemos; ainda que um humano-maquinizado, mas repleto de sentidos.
Este diagrama mixado em matérias podres e constituído de mutações reluzentes funciona não mais para a representação de um lugar preexistente que seja passível de definição – paradoxo desta escritura – mas funciona no sentido de produzir um outro tipo de realidade totalmente diferente da vacilação do senso comum...É este corpo ciente de seus furores, de suas necessidades vitais, sóbrio-embriagado de cosmogonias que me faz repensar não exatamente o que compõe a contemporaneidade, mas uma maneira de fugir de seu fim, de suas crises, de seus falsos princípios, e, por fim, produzir outras marcas que possam apresentar algo que subsististe entre o real e o imaginário, o visível e o invisível, o sonoro e o não-sonoro, um outro-lugar, e não somente um estar no lugar, ou mesmo um entre-lugar, que seja simplesmente estar imerso, no meio de uma babel bestializada...Potência de produção e não mais reprodução; nisso eu concordo com os franceses do pós-maio de 68: colagem-mosaico; descontinuidade; rupturas bruscas; mutacionismo; produção desejante (consumir, distribuir, acoplar...); micropoética; espaços preenchidos no vazio; caos como paradigma estético; arte-microscópio; dose surreal no real, homem-natureza-maquina ↔ relações sociais – ambiente – subjetividade; intertextualidade tempo / memória / esquecimento / consciência / riso inconsciente; abandono da consciência demasiado coletiva; retorno ao ato; mitopoética; visão cutânea; e muitos outros conceitos-atos que definem a atualidade, e mais que isso projetam-na para um outro pós; oxalá seja um pós-pós-fim, que não acredite mais na felicidade embasada no progresso, mas que não torne a felicidade apenas uma quimera; que não aceite a verdade, mas que não ameace a existência de seu terreno; que não produza somente a idéia de paz, mas que não se desfaça dos mecanismos da produção de uma guerra contra o establishment do capitalismo tardio; que invista numa redobrada atenção a este corpo engendrador de sentidos de um corpoautonomia contra o fim da história, e, mais que isso, afirmador de um desejo-saber-poder-pós-tudo...Se na modernidade o corpo perdeu definitivamente seu caráter uno, dividindo-se em dois - matéria física e espírito; seu recorte abstrato; se na pós-modernidade o corpo é a despedaço; se na contemporaneidade a própria decomposição está cada vez mais real: partes de braços, alma, seios, bocas, moral, olhos, órgãos genitais, ética, etc., o que poderá surgir senão um corpo pós-tecnológico prenhe de outro consumismo, o do artifício de se livrar do organismo; o de superar a morte; o de rejeição do mapa genético; o consumismo da inteligência, da sabedoria, da harmonia. Neste sentido exemplificaria o corpo-farpas de JAYME FYGURA não mais como um corpo manipulável, dominável física e simbolicamente, mas, por outro, com deslumbramentos com a própria vida-morte; contra a comodidade e sedentarismo coletivizados; oposto aquele que se alivia do peso; e, por isso mesmo, ávidos por uma falsa felicidade ligadas ao belo, saudável e erótico. Como produzi-lo é uma questão para prudentes...Bom, se a passagem da modernidade à pós-modernidade e desta à contemporaneidade tardia – há aqueles que rejeitam esta segunda distinção – e as separações como ,por exemplo, entre o saber e o poder, que antes estavam mixadas; o desafio deste corpo-outro é além da singularização de seus atos, e de sua legitimidade; uma total autonomia nos mais variados campos e diferentes graus - estético, social, político, e que implica, sobretudo numa rejeição às vanguardas e vítimas; aos heróis e ao coro dos descontentes, e assuma essa passagem onde cada um escolha e crie seus verões e sua manias, suas necessidades e virtudes infernais. Autonomia corporal, esta seria a utopia-concreta de JAYME? Talvez pela sua capacidade de subverter a modelização desse terreno; talvez pelo superlativo de vetores que engendra; talvez pela máscara mortuária que compõe seus costumeiros passos, e que é a própria demonstração das formas sociais estratificadas e segmentarizadas, incapazes de responder às mutações em trânsito. As farpas reluzentes que foge dos grupos, das normas, que se assemelha ao punk, mas não é isso; que esconde possíveis tatuagens, que não demonstra o cabelinho chapeado da patricinha; que é exceção à regra da boa conduta nesta era em que os corpos informáticos e os fluxos contemporâneos perdem a sua eficácia no mercado simbólico, é possível admitir que um artista-ativista busque na reinvenção do corpo um processo de redescoberta-inspiração para os novos tempos; não mais como modelo, mas como pontapé de uma desparadigmatização corporal: corpo-pós-simulacro; corpo-pós-aparência; corpo-pós-impostura; corpo-pós-embelezamento; corpo-pós-original; corpo-pós-farrapo-humano; corpo-pós-fantasia; corpo-pós-semiose semiose ilimitada; corpo-pós-cirurgia plástica; corpo-pós-alimentação; corpo-pós- Herkunft; corpo-pós-erros e conflito; corpo-enigma dos novos tempos...Nesse sentido, o corpo-fapas de JAYME é muito além de um simulacro, é o simulacro de si mesmo, mas é também um toque para a reconfiguração do design contemporâneo, e, conseqüente, confirmação do sentido etico-estético do mundo perversamente capitalístico. A simulação do novo nesta FYGURA é juntamente a mostra de que o corpoautonomia é a própria capacidade de uma outra aparência, expressão, forma e conteúdo para a libertação da liberdade, para o abandono do comum, em busca do belo-desinteressado, como bem colocou M. Blanchot, “a imagem passa a vir depois do objeto e é o que permite "enunciá-lo" em sua ausência...e essas imagens não correspondem aos seus objetos porque os substituem onde a própria natureza - a própria verdade do mundo - as proíbe de substituí-los: elas ultrapassaram a morte, o tempo e o espaço.” Elas pretendem passar por aquilo que não são. Elas estão onde não deveriam estar. Não são, portanto, aquilo que elas representam...Me parece que mesmo sendo difícil para muitos (re)definir o que é o contemporâneo e ainda que seja estranho pensar no paradoxo de um corpo farpas reconfigurando o design contemporâneo...essas imagens são a própria simulação de uma nova era...Só através da invenção de um corpo reluzente e autônomo é que surgirá uma possibilidade real para a imagem da superação do nosso curso...resta dizer que ainda é possível pensar no futurismo belicoso de Marinetti como um horizonte possível para o por vir...“não há beleza senão na luta”...
Fábio Rocha
http://curtaosarcofago.blogspot.com/