O EFEITO COLATERAL DA OBRA
Um ensaio sobre a miséria, a dor, a guerra, a morte e o êxtase de um homem-máquina
Por Fábio Rocha
“É por vezes um espinho oculto e insuportável, que temos cravado na carne, que nos torna difíceis e duros para com toda a gente.”
Paul Valéry
;o que interessa a um filme são os acontecimentos, aquilo que jamais se repetirá...nesse filme em especial – O SARCÓFAGO – o que interessa são os setores ligados a miséria, a dor, a guerra, a morte e ao êxtase de um homem-máquina....comecemos pelo primeiro setor...;estávamos indo montar a luz na Uzynanucleatelier de Jayme Fygura...e fui pensando durante o trajeto sobre a interpretação de forças com a equipe, sobre a experimentação de quadros, sobre o cálculo de problemas que teríamos pela frente...logo em seguida...quando as gambiarras já estavam incrustadas na parede de barro...quando o objeto arquitetônico, a criação do espaço nos chamava para o ato fílmico...quando a presença do diretor, suas diretrizes e seus furores secretos se confundiam...quando a presença do fotógrafo e o ato fotográfico (o gesto de fotografar)...se sobrepunham...quando a relação da equipe com o plano de composição se mixavam...nesse instante a narrativa tomava dimensões transversais entre a imagem fixa da FYGURA de JAYME e a imagem em movimento que estávamos empenhados em concretizar...esse lugar do fotógrafo na era digital...esse antipoeta das cores...o pintor de irrealidades...ou como quer que o chamemos...somado com a dimensão conceitual e pragmática do maestro...do diretor-montador...e ao estado crepuscular de um artista verdadeiramente visual...era - digamos - o começo de uma demonstração de admiração mútua...e certo embasbacamento em evidenciar os quadros em perspectiva geométrica de uma salvador cínica e trágica...e por vezes dramática...atravessada pelo corpo-obra...; com a natureza de Exú...o preto e o vermelho...revelaremos um paradoxo entre o dentro e o fora....a exterioridade e o interior através de cores quentes e sombras recortadas...a dor de um artista na miséria social...mas ainda assim imbuído de uma força esplêndida que será encarada através das lentes de um grafista não menos miserável...daí a duplicidade do encontro...a triplicidade melhor dizendo...quando pensamos na loucura da logística empunhada e materializada com certa doçura e brutalidade pelo compositor da obra...essa complementaridade do encontro...a densidade de um corpo-mídia...e a mídia densa de nosso corpo coletivizado...em busca de uma vibração...dos feixes luminosos e das camadas de flechas incendiárias...estamos...a bem da verdade...compondo a própria luminosidade da dor...com o calor, o frio do suor, a raiva, as intensidades, os pés inchados, a morte-vida de uma engrenagem em pleno vapor...produzindo velocidades na lentidão do centro...e trazendo da periferia...as texturas conceituais e a alucinação pungente de uma experiência física...no mínimo curiosa...mas é muito mais que isso...é a violação dos estereótipos da cosmogonia e dos sentimentos convencionais...e de certo modo...é o que faz da nossa vontade...uma densidade corpo-midiática...um homem “morto-imortal”...um narrador-personagem do próprio relato...uma objetiva-objeto do discurso...sob um contraluz difuso entre a vala comum da política e da poética...é também um território antropomaquinomorfizado... ;vejamos, portanto, alguns momentos que ilustram a maneira pela qual incursionamos pela experimentação desse campo cinemático...: os três primeiros dias de filmagem no SARCÓFAGO...chamamos erroneamente de Setor da limpeza...nesses primeiros passos o homem-máquina...e tudo aquilo que comumente designamos de lixo fazia uma diligência cautelosa...já que tudo ali era simplesmente matéria de composição...máquina abstrata em estado crepuscular...um lugar fora-de-lugar...material inútil era ,pois, material embaçado e nublado, agrupamento molecular...donde as peças do jogo estavam, de certo modo, embaralhadas...não podíamos dizer o que deveria sair sem antes pensarmos numa primeira contradição...embora desaprove essa vertente da contemporaneidade (a reinvenção do corpo pela máquina)...as mutações do corpo-obra de Jayme eram ,de todo modo, mutações de superfície maquínicas...reinvenções profundas do corpo-espírito através de petrechos, utensílios, material subjetivo e arcaico...uma segunda pele...e tudo isso era mesmo necessário para as metamorfoses...todo esse material inutilizado para “homens comuns”, ou melhor, seres acidentalmente cotidianos...era um desejo de potencializar ainda mais a carapaça esplêndida...jamais poderíamos reduzir a imagem dos materiais à uma função social...LIXO!?...
;esse primeiro instante para a composição do Sarcófago...valia mais que aparar as garras de uma contestação - jogar fora...modificar o terreno...eliminar as merdas...expulsar os vermes - transformar a arquitetura do lugar em uma máquina de produção...de distribuição...de consumo...em um sistema...às vezes aético (apenas outra função social ligada aos monumentos)...mas não menos precípuo...era sobremaneira uma ameaça a esse modelo de sobrecodificação...o que para muitos era uma velharia...para o Cyborg...(e isso é o que importa para a obra aberta)...era material descartável pela impossibilidade de arquivar...e mais que isso...era renovação...pôr novamente em vigor a inscrição tumular...exercício de composição de um epitáfio...elogio mórbido...o início de uma guerra que poderíamos chamar de a batalha do fora-íntimo...a vida para alguns: uma canabrava...para outros a crueldade processual...e isso podem acreditar....é um pesadelo muito pior...;foi preciso uma manhã inteira para dar inicio...não a retiradas de coisas inúteis...mas a elaboração do muro que reteria os ecos das instituições políticas ...e que suportaria a atividade genérica de outras zoadas ainda maiores...e ainda corresponderia, no plano da (in)consciência...às entranhas do próprio eu-sarcófago como campo pleno do antiheróiurbano...este híbrido produto da contracultura...testemunha ocular das desgraças da província....e de todo modo...esse desvio ativo frente as forças reativas...revertendo...com certo apego a um Jesus pós-impressionista...toda desvalorização material estereotipada como farpas em realidade mágica de farpas reluzentes...em potência não-domesticada...; o rosto coberto com uma máscara de gás era também a construção da certeza de seus odores...o muro era ,sobremaneira, a certeza de que era preciso ricochetear a significância...sair da tela do dia-a-dia para um quadro suprareal de a-significância...a mão que escava...é a mesma que escapa do buraco de que a subjetivação necessita para atravessar...e constitui o negro da subjetividade como câmera-viva...como terceiro olho...esse rosto de início...confuso entre a felicidade desse instante de providência...e a tristeza do já-passado...parece mesmo se desfazer, se desvanecer, se esvair a cada segundo...a cada bloco sobreposto...a cada madeira jogada com a força de um rasgão na caminhonete que espera à porta da arquitetura nômade...uma neutralização de sentimentos da (in)ação de cabeças que só fazem afirmar-produzir a própria (in)capacidade de dar sentido à vida...e que apenas refazem com olhares e julgamentos pré-conciliatórios...rostos definidos e definitivos, identificados e identificáveis na paisagem pré-pós-agônica...:
“Não tenham medo...Entrem daí mesmo...parados...será como estar nas estrelas...é como ir a outro planeta...sentirão sua mão formigando, mas não se preocupem...faz parte do jogo”
....a entrada, o começo aqui não tem a menor importância...a não ser para o início desses cacos introdutórios de uma etnocinematoposcorpografia....seguimos do meio...
;em nossa película, o desejo de um corpo potente e de atender a uma mente-lente esquizóide é realizado por meio do uso dessas próteses de ferro e couro...e da nossa postura de ver...adaptando-se ao ambiente que se esvai a cada tombo...a cada passagem...mudar de lugar é como se não fosse necessário pensar sobre a idéia de lugar...desse território entulhado de farrapos engenhosos...que pra alguns...deveriam ser descartados - e que não passa de velhos temores do organismo social...descartar o que não se pode transformar - e que aqui entulhos tornavam-se novas modalidades anatômicas e ontológicas...e é isso que nos interessa do PRIMEIRO SETOR...transformar toda sujidade...todo resíduo doméstico...toda inutilidade de código em satélites artificiais...(para alguns) em ontos+logoi = "conhecimento do ser" para nós...em novidade acerca da existência dos entes do artista...em afectos e perceptos...em visibilidade e dizibilidade do ser enquanto ser...tecnicamente e eticamente aperfeiçoado...Jayme é um produto desses materiais...o cyborg é um corpo sem órgãos...um híbrido de humano e de máquina... hýbris de carne e ferro....um composto biológico-técnico...a resultante entre natureza-cultura...entre as três ecologias...a da máquina, a do socius, e a ambiental...máquina desejante que vem para implantar a incomunicabilidade na comunicação...não que isso signifique o fim do suposto domínio humano sobre a natureza e a vida social...ele é apenas o intermezzo...a posição dúbia... talvez o próprio fato híbrido...como quem tenta dizer na imobilidade móvel...a morte sempre me acompanhou diante da ambição do semelhante...
; a ambição estava presente num primeiro momento...a ambição de ver...de espionar...e talvez mais que isso...a ambição do olhar persecutório...que não pode ser confundido jamais com o olhar do poeta...que transforma as coisas e é transformado por elas...reencontrando tudo à deriva de onde a invenção do cotidiano a deixou...o olho-câmera parecia se confundir com o olhar da sujeira...e a sujeira aparecia num refluxo...ia e vinha...em demàrches incongruentes...daí a sua morte, mas também o seu êxtase...o arroubo do artista é uma experiência que nasce no sujeito e acaba com ele...resignificando a sujeira....e levado à cabo a retransmissão...consumir em movimento era o primeiro plano....a dissipação....a dissolução...o sacrifico...e o êxtase, por esse motivo, se confundia com o erotismo, a poesia, o antiheroísmo...o homem-máquina servindo para alimentar, construir e reinventar o imaginário deste lugar impreciso chamado Bahia...o efeito colateral da obra era por em funcionamento as palavras e as coisas, deslocá-las e atravessá-las com significados outros...o pensamento-outro era o plano de imanência, ou seja, a possibilidade de pensar com a imagem...pensar o impossível, pensar o impensável...e pensar a própria natureza da imagem...para alguns isso pode parecer uma metáfora ferrocarnal...para nós era o próprio paradoxo da existência...o êxtase místico e a união do corpo com o espírito de Deus...de plano em plano....isso ficava mais evidente...sob olhares impostores...e sonoridades estrondosas.... um brado...como quem grita:
“Eles saíram de manhã... me deixaram aqui preso.....meu deus o que é que faço sem ninguém para brincar...a dispensa esta vazia....a TV esta queimada....nesse momento chove...minha casa está cheia de pingueiras....papai do céu me acuda..me tire desse inferno...tomara que mamãe volte logo...minha barriga está vazia...”
...aqui êxtase, miséria, dor, morte, arrebatamento, guerra, designam a mesma coisa...a marca do corpo-obra, o emblema de uma impostura...e a certeza que essa Fygura é legitimamente ser e palavra...ele é o que se diz...e diz o que é... maquina de possível...escrevendo, pintando, performando, pensando, girando e gerando pensamentos que discriminaremos, evidenciaremos, atualizaremos e virtualizaremos no SEGUNDO SETOR - na construção e performace da carapaça esplêndida - ; por hora fica a certeza de que...entre a obra, o diretor e o fotógrafo...o desejo de construir um campo de celeridade múltipla e uma imensa máquina de guerra só estão começando...no vislumbre do impossível... chegar ao fim....sem nunca ter que terminar...sabendo, é claro, que o perigo está na clareza das finalidades...o que fica deste começo no meio é a certeza de que essa arquitetura sensorial...é profundamente instável, fluente, mutável....e que mistura incessantemente matérias e funções de maneira a constituir um monumento fúnebre completamente vivo, um túmulo calcário nômade, um efeito colateral sem precedentes...e quiçá um novo tipo de realidade...um novo modelo de verdade pós-orgânica chamada: CINEMACORPO...